• Filosofando com as panelas

    A cebola, o ego, a meditação e a cozinha

    Muitos leitores perguntam o porquê do nome “Cebola na Manteiga” e hoje vim aqui contar para vocês de onde ele surgiu. Quando penso numa comidinha sendo feita em casa o primeiro cheiro que vem à cabeça é aquele que levanta da panela quando pico uma cebola em pétalas, cubos ou rodelas, bem do jeitinho que der na telha, pré aqueço uma frigideira e coloco esse alimento lindo para descansar e dourar em fogo médio. 

    O cheiro que brota nessa hora invade a casa, minha memória e a vizinhança. Desse singelo ato podem nascer sopas, caldos, arroz, cremes, frigideiras de legumes multicoloridos, refogados, assados, risotos… Uma verdadeira inspiração!

    Além disso, a cebola possui importância simbólica em algumas culturas e cultos espalhados pelo mundo. Há quem compare a estrutura folhada do bulbo, que não chega a nenhum núcleo, à própria estrutura do nosso ego, que vai se descortinando quando abrimos nossos olhos para o plano espiritual. A partir daí nada mais constitui obstáculo ao espírito universal. É como se cada camada do ego fosse descascada, assim como as camadas de uma cebola, até encontrar a vacuidade, a quietude do espírito. 

    Clique da @laradias, num dia em que a Cebola mostrou-se toda coração

    Osho, mestre do despertar da consciência, prega que “deve-se descascar a própria personalidade, camada por camada, da mesma forma que se descasca uma cebola. Basta descartar essas camadas. Novas camadas estarão presentes e, finalmente, chega o momento em que a cebola desaparece e sobre apenas um vazio nas mãos. Esse momento é o momento da iluminação. Não se pode desejá-lo, porque o desejo acrescenta outra camada à cebola, e é uma camada muito mais perigosa do que qualquer outra (…) Depois de descascar completamente a cebola, quando o ego evaporar, a iluminação estará lá. Mas não se pode dizer: “Tornei-me iluminado.” O “eu” não está mais presente, é a iluminação que está presente”.

    Bonito, né?

    A córnea humana também é comparada a uma cebola, e esse ingrediente é utilizado em rituais e cultos ao redor do mundo por suas virtudes afrodisíacas e composição química, além dos poderes antiinflamatórios, antitumoral, antioxidantes, antiviral, etc.

    Pensar nesse cheiro me faz querer correr para a cozinha! O despertar da minha consciência começou (coinci-DANÇA ou não) na beirada do fogão. É lá que consigo aquietar minha mente, prestar atenção nos cortes, na interação dos ingredientes, no poder que eles tem de modificar um ao outro, como se agregam ou se repelem, como ativam ou minam as propriedades das receitas, como sobrepõem os gostos dependendo da quantidade utilizada… É um mundo de possibilidades!

    Foi na cozinha que encontrei minha quietude. Cozinhando eu esqueço do mundo e tiro folga de todos os problemas.

    Sempre fui dessas pessoas tão ansiosas que para evitar perder 30 segundos fazem xixi segurando a duchinha numa mão e o papel higiênico já dobrado na outra. Sabe como é? E tentei de tudo pra controlar esse sentimento terrível que é a ansiedade: florais, espiritualidade, homeopatia, remédio, terapia junguniana e freudiana, hipnose, autohipnose, palestras, aromoterapia… Tudo isso me ajudou bastante, mas absolutamente nada fez tanto efeito quanto a meditAÇÃO na cozinha. 

    Colocando a barriga no fogão aprendi a lidar com meu corpo, com minha ansiedade, a potencializar meu sono, disposição e alegria.

    Sõnia Hirssh, cozinheira de mão cheia e autora de muitos livros que me inspiraram, prega que “a meditação pode ser feita de muitas formas, e todas elas tem o mesmo objetivo: pacificação da mente, que não conhece limites e não
    para quieta um instante. Meditação é um jejum mental, onde se procura não pensar. Seja em silêncio ou cantando mantras, depois de um tempo as preocupações desaparecem e mesmo o principiante percebe que a mente se acalmou. Cozinhar também pode ser meditação. A uma, porque leva tempo, exige paciência e entrega. Duas, porque se você não põe a mente no que está fazendo pode queimar a comida, salgar demais, temperar de menos, entornar o azeite, errar a receita e cometer toda sorte de erros e distrações, que acabariam em sabe Deus que tragédias! Três, porque essa combinação de paciência, entrega e atenção dá margem a micromeditações – enquanto você faz não pensa, não julga, apenas observa”.

    Sempre que for colocar a barriga no fogão, contemple os alimentos que você vai levar à mesa, descasque, cheire, observe, sinta! Expanda suas papilas gustativas, expanda seu sentir, o pensar, o comer, o beber, ame através da comida, escute seu corpo, escute as panelas, se entregue por inteiro, esteja presente.

    Assim a gente vai refogando as Cebolas da alma em fogo brando, calmo, até que elas fiquem transparentes e doces. Cozinhar faz efeito no SER INTEIRO da gente.

    Não é à toa que somos os únicos seres que cozinham o próprio alimento. Desfrute desse poder!


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