Há poucos meses me dei conta do tanto de dinheiro que gastei comprando itens absolutamente supérfluos numa tentativa de reproduzir o mundo externo dentro da minha casa.

Ouvi uma frase que exemplifica bem esse consumo desmedido: “a gente esquece que, para pregar um quadro na parede, precisa apenas do furo, e não da furadeira”.

Resolvi falar sobre isso pois tou cá de mudança e durante a “encaixotação” das cousas todas fiquei absolutamente chocada com meu apego desmesurado por itens que usei poucas vezes na vida. Gastei 2/3 do meu tempo entre os idos de 2014 a 2016 trabalhando MUITO (e isso quer dizer 16 horas/dia) para ter mais dinheiro e assim poder comprar mais e me sentir menos frustrada.

Ao invés de uma conta bancária gorda, adquiri tiques nervosos.  

Só visualizei esse LOOP INFINITO que desgastou minha alma quando percebi que não tinha tempo para cozinhar – e essa é a coisa que mais amo fazer nessa vida.

A passos lentos passei a focar meus esforços em consumir menos para consequentemente poder trabalhar menos. E nem foi tão difícil assim. 

Mas se ISSO É TÃO LÓGICO, porque diabos é tão difícil aplicar no dia a dia?

Simples: O CONSUMO DESNECESSÁRIO, exponencialmente fomentado pela nossa sociedade capitalista, SE VESTE DE COMPENSAÇÃO.  

A gente consome porque fica frustrado.

A gente compra tudo pronto porque é programado a dizer pra si mesmo que não tem tempo.

A gente se dá “presentes” porque não tem tempo presente (clichê brega porém verdadeiro passando).

Em suma, acostumamos com tudo pronto para poder ter mais conforto, sem pensar nas consequências disso para nós mesmos – vide a galera que compra fruta descascada embalada em plástico filme and isopor e esquece que a embalagem bonitinha que vem na frutinha cortadinha demora cerca de 500 anos para se decompor.

É fácil confundir facilidade com felicidade quando a gente não questiona as coisas. 

Em conversa com um amigo descobri que estava vivendo uma onda minimalista sem saber. Já ouviram falar desse povo que reduz ao mínimo o emprego de elementos ou recursos? Tou tentando ser assim.

O documentário The Minimalists (tem no Netflix), ensina que por trás do nexo simplório do minimalismo existe uma logística muito inteligente. Fiquei tão curiosa (gêmeos, né, mores) que resolvi me aplicar um desafio que grande parte dessa galera adota: me vestir com apenas 33 peças de roupa durante 02 meses. Súmemo, produção: 33 peças somente.

Não contabilizei, dentro dos 33 itens, lingeries, pijama, roupa para ficar em casa e as de corrida. Cheguei nesse número depois de ler sobre o Projeto 333 e o tal de “capsule wardrobe”, do inglês “cabe tudo na malinha de mão”.

A tal logística inteligente que citei parte da premissa que, quando temos uma escolha a fazer, por uma questão instintiva e antropológica o cérebro entra em estado de estresse, pois no fundo interpreta a escolha como uma forma de abdicação do objeto não escolhido.

É o danado do princípio da escassez, que vale um Google.

Ou sejEEEE, quanto menos escolhas, mais dopamina. Alô, dono e proprietário da marca Chanel e Tio Mark Zuckerberg!

Não contei para ninguém que iria adotar a ideia das 33 peças e pasmem: nem meia alma viva reparou que eu estava usando as “mesmas” roupas. Meu namorado não reparou, meus colegas de trabalho não notaram, tampouco meus amigos próximos.

O máximo que ouvi de um par de pessoas aleatórias no trabalho foi um “você só usa preto, né?”. Mas como eu já usava preto antes, esse comentário não contabiliza. E se contabilizasse, soaria como elogio, pois bastaria pensar que o tempo que passava escolhendo e combinando “looks” antes de sair de casa agora gasto saindo mais cedo do trabalho.

Capice?

Tá certo que não consegui (e se G O VÁ permitir chegarei lá) me desfazer do restante das roupas que estão no meu armário, mas no último mês doei 2/3 dos meus sapatos (adeus, salto alto, companheiro da época que insistia que a advocacia só poderia ser exercida de tailleur), 1/3 das minhas roupas, 90% dos acessórios como bolsas, brincos, colares, cintos, e mais um tanto de quinquilharia que até os carnavalescos duvidariam.

Junto com as doações ganhei mais leveza e tempo, viajei mais e de quebra salvei dinheiro, pois tem 02 meses que passo batido pelas promoções e não sinto aquela necessidade de consumir por consumir. Nas poucas vezes que a vontade bate, deixo para comprar no outro dia e puf… a vontade passou!

Mas não tou falando isso para parecer subversiva e nem para criticar a galera que adora um shopping, juro.

Estou aqui para convencer vocês a irem para a cozinha. Isso aí: co-zi-nhar, do verbo esquentar a barriga no fogão.

Mas o que esse papo todo tem a ver com cozinha?

TUDO, meu caros.

Quando você cozinha, passa a valorizar produtos locais, pois sabe que os verdinhos cultivados de forma orgânica na terrinha de um tiozinho legal são bem mais saborosos e nutritivos que os do hipermercado.

Quando você cozinha, estabelece uma relação com o alimento.

Quando você cozinha, você produz menos lixo.

Quando você cozinha, você respeita os solos e as águas.

Quando você cozinha, você desembrulha menos e descasca mais.

Quando você cozinha, você cuida da sua saúde.

Quando você cozinha, você sabe o que está comendo.

Quando você cozinha, você entende que não pode exercer controle sobre todas as coisas.

Quando você cozinha, você apura o desapego.

Quando você cozinha, você economiza dinheiro.

Quando você cozinha, você tem mais controle sobre sua fome.

Quando você cozinha, você desperdiça menos.

Quando você cozinha, você se conecta com o universo.

Quando você cozinha, você se sente mais bonito.

Quando você cozinha, você aumenta o poder de escolha.

Quando você cozinha, você exerce sua humanidade.

Quando você cozinha, você entende seu corpo.

Quando você cozinha, você aceita os erros.

Quando você cozinha, você lixa o ego.

Quando você cozinha, você medita e fomenta a paciência.

Quando você cozinha, você respeita o tempo das coisas.

Quando você cozinha, você aprimora o paladar.

Quando você cozinha, você vive melhor. 

Quando você cozinha, você foge da indústria mercantilista que se aproveita da fraqueza humana.

Quando você cozinha, aprende a diferença entre sabor e comida que nutre.

Quando você cozinha, você tende a consumir menos sódio, gordura e açúcar.

Quando você cozinha, você realmente internaliza que um alimento saudável não pode durar meses sem os mil conservantes usados pela indústria.

Quando você cozinha, você pratica o poder da observação.

Quando você cozinha, você muda o mundo. 

Quando você cozinha, você CONSOME MENOS.

Menos plástico.

Menos isopor.

Menos embalagens.

Menos remédios.

E sobra mais.

Mais tempo.

Mais disposição.

Mais saúde.

Mais bem-estar.

Cozinhar é um processo de auto empoderamento, cozinhar é deixar um legado, é pensar no outro. Cozinhar, como diria o querido Mia Couto, é uma forma de amar as pessoas.

Portanto, é preciso desconfiar do consumo, trucar o consumo, abrir as portas para outro espaço, enfrentar-se ao contrário, não deixar os alimentos multiprocessados tomarem a cena toda.

Não é à toa que SOMOS A ÚNICA ESPÉCIE QUE COZINHA O PRÓPRIO ALIMENTO.

Comecem aos poucos, comecem de ladinho, passo a passo, comecem passarinho.

A mudança vem de dentro.

Dabliu dabliu dabliu ponto Cebola Na manteiga ponto com.

Besos com amor.

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