• Receitas

    A flor de ipê salteada e o necessário flerte com a morte

    O ipê é minha árvore preferida pelo simples fato de que ela flerta com a morte. Em pleno inverno, longe da bonança das águas das chuvas que nutrem, o ipê, crente que vai morrer de esquecimento e secura, concentra todas as suas forças para florescer, garantindo assim que suas sementes sejam disseminadas pelo vento e possam fazer germinar em outros canteiros novos exemplares de sua espécie.

    Todas as vezes em que me deparo com um ipê penso em como ignoramos a morte, que paradoxalmente é a única certeza que temos na vida. Falar sobre a morte é quase um tabu! Quando o assunto sai numa roda, as pessoas na maior parte das vezes mudam o rumo da conversa.

    Tento encarar o envelhecimento e a consequente chegada da morte como um processo natural, tranquilo e absolutamente necessário. Longe de mim a ideia egocêntrica de querer viver a mesma vida para sempre!

    O escritor e gênio Rubem Alves cita o ipê em muitos de seus contos. Em “Os Ipês Estão Floridos” ele ilustra bem essa linha de raciocínio:

    “Gosto dos ipês de forma especial. Questão de afinidade. Alegram-se em fazer as coisas ao contrário. As outras árvores fazem o que é normal – abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está prá chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio.

    Conheci os ipês na minha infância, em Minas, os pastos queimados pela geada, a poeira subindo das estradas secas e, no meio dos campos, os ipês solitários, colorindo o inverno de alegria. O tempo era diferente, moroso como as vacas que voltam em fim de tarde. As coisas andavam ao ritmo da própria vida, nos seus giros naturais. Mas agora, de repente, esta árvore de outros espaços irrompe no meio do asfalto, interrompe o tempo urbano de semáforos, buzinas e ultrapassagens, e eu tenho de parar ante esta aparição do outro mundo. Como aconteceu com Moisés, que pastoreava os rebanhos do sogro, e viu um arbusto pegando fogo, sem se consumir. Ao se aproximar para ver melhor, ouviu uma voz que dizia: “Tira as sandálias dos teus pés, pois a terra em que pisas é santa”. Acho que não foi sarça ardente. Deve ter sido um ipê florido. De fato, algo arde, sem queimar, não na árvore, mas na alma. E concluo que o escritor sagrado estava certo. Também eu acho sacrilégio chegar perto e pisar as milhares de flores caídas, tão lindas, agonizantes, tendo já cumprido sua vocação de amor”.

    Tem coisa mais poética que um ipê repleto de flores no inverno, contrastando com o restante da vegetação?

    As PANC´S  e o nosso analfabetismo botânico

    Há cerca de três anos conheci o livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC`s), de Valdely Kinupp. Me lembro bem que, ao me deparar com as duas páginas coloridas que falavam sobre o ipê, fiquei extasiada ao tomar ciência de que as flores são comestíveis. Logo pensei: que gosto será que elas têm?

    Desde então esse livro virou uma espécia de bíblia na minha cozinha. Ele fica sempre à vista, pois adoro folhear como uma forma de abrir meus olhos para o novo, de pensar fora da caixa quando lido com os alimentos. Valdely traz receitas inimagináveis e explicações sobre cada PANC. Aliás, logo de cara ele explica que PANC é também uma parte de uma planta que a gente conhece mas não pensa em comer, como a casca da banana e o umbigo da bananeira ou a própria flor dos ipês por exemplo. 

    Através desse livro me dei conta que sou uma analfabeta botânica. Pesquisando, descobri que o ser humano consome apenas 0.06% das plantas comestíveis disponíveis no planeta, sendo que 80% da vasta vegetação brasileira é comestível. 

    Por que esses fatos não são divulgados?

    Por que a diversidade alimentar não é ensinada nas escolas, sendo que pessoas morrem de fome ao redor do mundo todos os dias?

    É triste para mim pensar que a monotonia alimentar nos habita. Vamos ao supermercado e encontramos o mesmo de sempre. Se queremos comer batata, por exemplo, encontraremos geralmente a inglesa, baroa, doce e asterix, sendo que existem mais de 4.000 tipos de batata somente na Cordilheira dos Andes.

    Como mudar esse cenário?

    Uma pequena ação pode começar a minimamente reverter essa situação: precisamos criar uma DEMANDA de mercado, indo às feiras e supermercados e sempre perguntar se existem PANC’s disponíveis para compra. Os produtores muitas vezes não comercializam as PANC´s por causa do baixo valor econômico, eles simplesmente pensam que não serão compradas e por isso não disponibilizam para venda.

    Quer um exemplo? Ora pro nobis, planta trepadeira cheia de proteína e deliciosa, muito usada na culinária mineira. Ela se reproduz aos montes e, na contramão do que poderia acontecer, não está disponível para compra.

    Na próxima vez que for à feira, crie a demanda, pergunte, faça parte dessa mudança!

    Agora, a receita de flor de ipê salteada

    Essa é uma releitura da receita do Valdely. Você vai precisar de: 

    Um punhado de flores de ipê frescas e bem lavadas (serve flor de ipê roxo, rosa, branco, amarelo)

    Meio dente de alho picadíssimo

    1/3 cl. (de chá) de sal

    1/2 cl. (de chá) de cúrcuma ou qualquer especiaria que você goste

    1 fio de azeite extravirgem

    Flroes de ipê - comestíveis
    Flores de ipê colhidas na Praça da Liberdade, no exato momento em que iam caindo no chão

    Preparando as flores

    Pré aqueça uma penela e coloque o fio de azeite para dourar com o alho

    Acrescente os temperos e, por fim, a flor de ipê

    Mexa com muita delicadeza até que o tempero incorpore, tomando cuidado para não queimar as pétalas

    Sirva imediatamente!

    Uma dica é consumir com saladas, torradas ou no meio de alguma massa!

    Flores comestíveis de ipê
    Flores de ipê salteadas no azeite

    Afinal, que gosto a flor tem?

    As flores do ipê são bastante amargas, e acompanham muito bem uma cervejinha, contrariando a coisa da comida de fada!

    Se você gostou desse texto, acesse o cantinho Filosofando Com As Panelas e assine o Jornalzinho do Cebola para receber novidades.

    Partilhe também o texto com os amigos e deixe cá um comentário para que a gente possa se amar virtualmente!

    NÃO PERCA NENHUMA NOVIDADE!
    Receba em primeira mão o conteúdo do Cebola 🙂
    Inscrever!
  • You may also like

    NÃO PERCA NENHUMA NOVIDADE!
    Receba em primeira mão o conteúdo do Cebola :)
    Inscrever!
    Me inscrever :)

    Pin It on Pinterest

    Share This